20.6.04
Portugal no Início do Século XXI – Compreender para Agir
O tema das relações entre as comunidades de imigrantes e as de acolhimento, aqui na Europa, em geral, e em Portugal, em particular, é de preocupação generalizada. Especial atenção, contudo, é devida para as dificuldades de integração experimentadas pelas comunidades de cultura islâmica, muito vulneráveis à influência da doutrinação fundamentalista, que explora todo o seu desconforto para a partir daí as voltar contra a cultura ocidental de matriz judaico-cristã.
Nos artigos anexos abordo dois casos que me parecem momentosos : relações entre comunidades e luso-espanholas.
Espero que, no primeiro artigo adiante, não ofenda nenhuma sensibilidade particular, porque não tenho sentimentos de ódio contra nenhuma cultura, embora não me agradem as que difundem sentimentos de intolerância, como acho que fazem os grupos radicais islâmicos, um pouco por todo lado onde têm oportunidade de exercer influência, espalhando a violência, promovendo o obscurantismo e segregando as mulheres do convívio social.
Não obstante, aprecio muitos aspectos da cultura muçulmana, em especial, na literatura, na arquitectura e na agricultura, sectores em que disponho de algum conhecimento acerca dos seus importantes contributos para a nossa civilização. Mas, justamente por isso, acho que não devemos contemporizar com os assomos intolerantes e obscurantistas das suas muito aguerridas seitas religiosas, de que as entidades oficiais dos países de origem, supostamente discordantes, não têm feito a necessária denúncia ou demarcação, com a consequente reprovação da actividade que estas seitas desenvolvem, para prejuízo de todos, mas, principalmente, dos próprios muçulmanos.
No segundo artigo que agrego e que não cheguei a publicar, procurei dar nota de um protesto, por actuação incorrecta da polícia espanhola com portugueses e, ao mesmo tempo, aproveitei um episódio de disputas territoriais entre Espanha e Marrocos, para relembrar um contencioso que Portugal mantém com o seu vizinho ibérico, que, se não está nas agendas políticas actuais, a verdade é que tão-pouco se pode considerar encerrado.
A meu ver, a falta de interesse dos nossos compatriotas pela Questão de Olivença deriva, em grande parte, do desconhecimento do facto histórico que lhe ficou associado : Guerra das Laranjas, em 1801, agravado pelo progressivo alheamento da população das matérias relacionadas com a Língua e a Cultura Portuguesas, de que a História Pátria é natural companheira e, bem assim, pela extrema importância que actualmente se atribui aos aspectos económico-materiais da chamada vida moderna.
A situação cultural do país parece-me muito grave, no que respeita ao cerne da nossa identidade. É hoje absolutamente imperioso fortalecer a cultura de raiz portuguesa na nossa população, que, progressivamente alienada pelo futebol e pela televisão, adere a qualquer idiotice cunhada no exterior, esquece a sua história, despreza o seu património e cai num desânimo e definhamento que, a prazo, mais curto do que o imaginável, pode condenar a nossa cultura à extinção, como aconteceu a outras no passado.
Chega a ser confrangedor ouvir a Rádio em Portugal : passa música de todo o lado, boa e má e quase nenhuma nossa, apesar de haver uma lei que impõe uma quota obrigatória – 40% - de música nacional. Ninguém se rala. Fica ao critério do locutor ? Haverá quem responda pelos critérios ?
Entra-se num estabelecimento comercial qualquer, com música ambiente, e que se ouve : música americana, inglesa, brasileira ou espanhola, quase nunca portuguesa. Será normal ? Em que lugar nos encontramos ? Como damos, assim, referências identitárias ao nosso povo ?
Já há conjuntos musicais de jovens que só se dignam cantar em inglês. Para atingir um público mais vasto, dizem. Seria interessante saber quantos discos vendem além-fronteiras estes grupos estranhamente portugueses.
Estamos a criar gerações de desmemoriados da Cultura Portuguesa, que, a continuarmos assim, ficará restringida aos centros académicos mais eruditos, à semelhança do que já se verifica com as disciplinas de Cultura Clássica, quando há hoje muito mais condições para promover a difusão de todos os conhecimentos, por multiplicação de meios, rapidez e eficácia da sua utilização. Mas é como se nada disto existisse. A grande massa da população nada disto aproveita ou apenas muito pouco, por desinteresse ou desleixo dos responsáveis pelas instituições incumbidas do dever de divulgar e defender a nossa cultura, que muito mais poderiam fazer, mesmo com os limitados recursos actuais.
É absolutamente indispensável criar o gosto, o orgulho de pertencer a uma matriz cultural - a portuguesa, latina, que entronca na da Antiguidade Clássica - que não desmerece em comparação com outras. Há sempre quem tenha feito mais e melhor, mas também o contrário. Por que nos havemos de sentir inferiorizados ? O processo histórico está cheio de vicissitudes : os que hoje vão na dianteira, já se encontraram na retaguarda. A História encerra muitas surpresas e os balanços nunca são definitivos. Só quem possuísse a chave mística do Universo poderia fazer juízos derradeiros. Isto já nem os mais religiosos se atrevem a proclamar, pelo menos os de cultura cristã.
Apesar dos investimentos sempre crescentes na Educação, os resultados permanecem muito aquém do desejado, essencialmente, por falta do sentido de rigor e de responsabilidade dos múltiplos dirigentes que, a todos os níveis, favorecem o culto da facilidade, pretendendo com tal atitude conquistar a simpatia popular. Pelo que se vê, esta atitude tem prosperado, mas a que custos, ninguém cura de avaliar.
Os jovens, na sua maioria, não aprendem com rigor, ganham aversão às matérias científicas mais trabalhosas, como a Matemática e a Física, mas também não adquirem formação consistente nas de cultura humanística, base de qualquer futura intervenção política, para além da necessária competência técnica. Basta observar o mau domínio generalizado do português, ignorando que qualquer língua culta tem gramática, e que só o convívio com os autores, antigos e modernos, que cultivaram com elevação o idioma, garante o seu domínio regular e, a agravar tudo isto, a ilusão de que todos falamos inglês, etc...
Estas e outras reflexões que aqui aflorei carecem de ser organizadas num todo coerente, com vista a um futuro artigo. Tenho, obviamente, a noção de que existem outros mais bem preparados nestas matérias, mas, por qualquer razão, não aparecem à luz do dia. Estarão certamente muito ocupados, em altos trabalhos científicos, nas Academias, nas Universidades... Porém, não intervêm civicamente e, assim, não exercem o seu magistério, abrindo campo a toda a sorte de atrevidos, ignorantes, por regra, para além do admissível, sobretudo, quando desempenham funções públicas de relevo, criando verdadeiros paradigmas invertidos.
Estamos assim a edificar um sistema social fortemente assimétrico, para lá do que é aceitável, não só no plano económico, mas também no cultural, em que, a par de uma alta especialização, grassa uma descomunal incultura, que debilita as sociedades, tornando-as presas fáceis de grupos de oportunistas e demagogos sem escrúpulos, que, infelizmente, vão fazendo carreira, a coberto da conivência de uns e da passividade de outros.
Estas e outras semelhantes reflexões vão surgindo por aqui e por ali. No entanto, o problema todo reside no que fazer para inverter a presente situação. Terá a sociedade portuguesa actual reserva suficiente de clarividência para compreender as consequências do apodrecimento cultural em que caiu e conseguirá ela reunir a energia indispensável para debelar as presentes ameaças ? Compreender para agir, deveria ser o nosso lema. De contrário, tudo permanecerá desconjuntado, disperso e, como tal, ineficaz para a desejada regeneração do corpo nacional, hoje tão necessária, como no já distante século xix, altura em que muito se discutiu este tema.
António Viriato - Lisboa - 07-01-2003
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Relações Luso-Espanholas
1- Os episódios recentes dos incidentes na fronteira com a polícia espanhola, juntamente com o ainda mais recente incidente do ilhéu da Salsa, Perejil ou Leila, como se preferir, na costa norte marroquina, veio reacender uma velha questão que alguns incautos julgavam já sepultada nas brumas da História ou mera reminiscência de excêntricos saudosistas dos Séculos das Nações, inexoravelmente, no caso português, deformados pela instrução nacionalista do velho Estado Novo, como gosta de sentenciar uma certa franja social, tida por moderna e bem pensante, com muito peso nas Universidades e na Comunicação.
2- Depois de tanto se apregoar a abolição das fronteiras e a livre circulação de pessoas e capitais, eis que uma simples anunciada manifestação de protesto dos desencantados da mundialização, numa cidade da Andaluzia, trouxe num ápice, e mesmo ultrapassou, o rigor dos controlos fronteiriços, com surpresa geral pela ostensiva brutalidade da polícia espanhola, que sumariamente intimidou tudo e todos, quais novos suzeranos de territórios e populações vizinhos. Note-se que o comportamento das autoridades espanholas extravasou completamente a lei que permite suspender o Acordo de Shengen e repor o controlo das fronteiras. Aquilo a que se assistiu foi a um encerramento arbitrário de fronteiras, puro e simples, com exibição gratuita de autoridade policial.
3- Compreende-se a intenção do Governo Português de desvalorizar os acontecimentos, procurando encerrar rapidamente o assunto, como se de um incómodo cadáver, saído de um qualquer sótão esconso, se tratasse. Para tanto, cumpria aceitar qualquer esboço de desculpa do Estado espanhol, tão logo este se manifestasse, como veio a suceder, para tranquilidade dos nossos governantes.
4- À parte algumas peripécias, a roçar o ridículo, como a das diversas acepções do verbo castelhano lamentar, tudo o que lhes subjaz é demasiado importante, para passar sem reparo. Por mais que certos espíritos despreocupados - inquestionavelmente pós-modernos – pretendam, o incidente foi grave e não vale a pena escondê-lo, nem escamoteá-lo, com a alusão a pretensas retaliações por parte das autoridades espanholas, por anteriores posições assumidas pelo Bloco de Esquerda, tradicionalmente apoiante da ETA.
5- A verdade é que a atitude da polícia espanhola tenderia sempre a ser a mesma, qualquer que fosse a família política do grupo de portugueses envolvido. Ainda não há muitos meses, outro grupo de cidadãos portugueses, quando distribuia publicamente um comunicado sobre a Questão de Olivença, salvo erro, em Cáceres, por ocasião de um encontro de dirigentes da União Europeia, foi também alvo de fortes intimidações, com cerco, revista e detenção, por parte das autoridades espanholas. Dir-se-ia que esta postura façanhuda faz parte do tratamento habitual das autoridades espanholas, para que os portugueses saibam com quem estão a lidar, independentemente do assunto em causa. Se não é isto que se deve entender, então é caso para dizer que escolhem uma via muito original para demonstrar os bons sentimentos evocados nos discursos oficiais das repetidas cimeiras luso-espanholas.
6- Convém não ser muito ingénuo e ir anotando as provas de amizade, sobretudo, relembrando as manobras mais ou menos evidentes de boicote a produtos portugueses, às vezes subtis, que conduzem invariavelmente ao mesmo resultado : eliminar ou neutralizar hipotéticos concorrentes no campo económico, não concedendo em Espanha as condições de igualdade que reclamam em Portugal, quando desejam entrar no nosso mercado. Compare-se, por exemplo, o alarido feito pela imprensa espanhola, quando ocorreu o caso do embargo, infelizmente inconsequente, por falta de firmeza do Governo Português, à aquisição de parte significativa do nosso sector bancário, por um grande grupo financeiro espanhol, com a forma como a mesma imprensa relatou a oposição do governo espanhol ao controlo da Hidro-Cantábrico pela EDP. Veja-se também como foram noticiados os casos dos incidentes na fronteira e o protagonizado pelos Amigos de Olivença, na cidade de Cáceres.
7- No ilhéu da Salsa, contudo, minúsculo rochedo a menos de 200 m da costa marroquina, a sofreguidão das autoridades espanholas em implantar-lhe a sua bandeira, como afirmação de soberania inequívoca, sobre algo que nem sequer oficialmente lhes está atribuído, não pode deixar de causar, sobretudo a Portugueses, um inevitável sentimento de repulsa, pela grosseira utilização de dois pesos e duas medidas, para abordar questões de natureza muito semelhante, como são as que envolvem as disputas sobre os territórios de Gibraltar, Olivença, Ceuta, Melilha e demais ilhéus junto à costa marroquina.
8- Brada aos céus a incoerência da posição espanhola, que exige dos seus contendores – Reino Unido, a propósito de Gibraltar – aquilo que ela própria nega, quando se invertem os papéis na disputa – Olivença, Ceuta e Melilha – com Portugal e Marrocos. Ou seja, a Espanha nega-se a cumprir com Portugal e Marrocos, aquilo que exige, em circunstâncias idênticas, porventura, com menos razão, ao Reino Unido, pela continuada ocupação de Gibraltar. A sua única coerência, neste diferendo, consiste em nunca ter desistido de reclamar a devolução de Gibraltar, ao contrário de Portugal, que, oficialmente, nos últimos quarenta anos, pouco ou nada terá feito pela retrocessão da Vila de Olivença e seu termo. Nem por isso, no entanto, os seus direitos prescreveram ou diminuiram.
António Viriato
Lisboa, 22 de Julho de 2002
Nos artigos anexos abordo dois casos que me parecem momentosos : relações entre comunidades e luso-espanholas.
Espero que, no primeiro artigo adiante, não ofenda nenhuma sensibilidade particular, porque não tenho sentimentos de ódio contra nenhuma cultura, embora não me agradem as que difundem sentimentos de intolerância, como acho que fazem os grupos radicais islâmicos, um pouco por todo lado onde têm oportunidade de exercer influência, espalhando a violência, promovendo o obscurantismo e segregando as mulheres do convívio social.
Não obstante, aprecio muitos aspectos da cultura muçulmana, em especial, na literatura, na arquitectura e na agricultura, sectores em que disponho de algum conhecimento acerca dos seus importantes contributos para a nossa civilização. Mas, justamente por isso, acho que não devemos contemporizar com os assomos intolerantes e obscurantistas das suas muito aguerridas seitas religiosas, de que as entidades oficiais dos países de origem, supostamente discordantes, não têm feito a necessária denúncia ou demarcação, com a consequente reprovação da actividade que estas seitas desenvolvem, para prejuízo de todos, mas, principalmente, dos próprios muçulmanos.
No segundo artigo que agrego e que não cheguei a publicar, procurei dar nota de um protesto, por actuação incorrecta da polícia espanhola com portugueses e, ao mesmo tempo, aproveitei um episódio de disputas territoriais entre Espanha e Marrocos, para relembrar um contencioso que Portugal mantém com o seu vizinho ibérico, que, se não está nas agendas políticas actuais, a verdade é que tão-pouco se pode considerar encerrado.
A meu ver, a falta de interesse dos nossos compatriotas pela Questão de Olivença deriva, em grande parte, do desconhecimento do facto histórico que lhe ficou associado : Guerra das Laranjas, em 1801, agravado pelo progressivo alheamento da população das matérias relacionadas com a Língua e a Cultura Portuguesas, de que a História Pátria é natural companheira e, bem assim, pela extrema importância que actualmente se atribui aos aspectos económico-materiais da chamada vida moderna.
A situação cultural do país parece-me muito grave, no que respeita ao cerne da nossa identidade. É hoje absolutamente imperioso fortalecer a cultura de raiz portuguesa na nossa população, que, progressivamente alienada pelo futebol e pela televisão, adere a qualquer idiotice cunhada no exterior, esquece a sua história, despreza o seu património e cai num desânimo e definhamento que, a prazo, mais curto do que o imaginável, pode condenar a nossa cultura à extinção, como aconteceu a outras no passado.
Chega a ser confrangedor ouvir a Rádio em Portugal : passa música de todo o lado, boa e má e quase nenhuma nossa, apesar de haver uma lei que impõe uma quota obrigatória – 40% - de música nacional. Ninguém se rala. Fica ao critério do locutor ? Haverá quem responda pelos critérios ?
Entra-se num estabelecimento comercial qualquer, com música ambiente, e que se ouve : música americana, inglesa, brasileira ou espanhola, quase nunca portuguesa. Será normal ? Em que lugar nos encontramos ? Como damos, assim, referências identitárias ao nosso povo ?
Já há conjuntos musicais de jovens que só se dignam cantar em inglês. Para atingir um público mais vasto, dizem. Seria interessante saber quantos discos vendem além-fronteiras estes grupos estranhamente portugueses.
Estamos a criar gerações de desmemoriados da Cultura Portuguesa, que, a continuarmos assim, ficará restringida aos centros académicos mais eruditos, à semelhança do que já se verifica com as disciplinas de Cultura Clássica, quando há hoje muito mais condições para promover a difusão de todos os conhecimentos, por multiplicação de meios, rapidez e eficácia da sua utilização. Mas é como se nada disto existisse. A grande massa da população nada disto aproveita ou apenas muito pouco, por desinteresse ou desleixo dos responsáveis pelas instituições incumbidas do dever de divulgar e defender a nossa cultura, que muito mais poderiam fazer, mesmo com os limitados recursos actuais.
É absolutamente indispensável criar o gosto, o orgulho de pertencer a uma matriz cultural - a portuguesa, latina, que entronca na da Antiguidade Clássica - que não desmerece em comparação com outras. Há sempre quem tenha feito mais e melhor, mas também o contrário. Por que nos havemos de sentir inferiorizados ? O processo histórico está cheio de vicissitudes : os que hoje vão na dianteira, já se encontraram na retaguarda. A História encerra muitas surpresas e os balanços nunca são definitivos. Só quem possuísse a chave mística do Universo poderia fazer juízos derradeiros. Isto já nem os mais religiosos se atrevem a proclamar, pelo menos os de cultura cristã.
Apesar dos investimentos sempre crescentes na Educação, os resultados permanecem muito aquém do desejado, essencialmente, por falta do sentido de rigor e de responsabilidade dos múltiplos dirigentes que, a todos os níveis, favorecem o culto da facilidade, pretendendo com tal atitude conquistar a simpatia popular. Pelo que se vê, esta atitude tem prosperado, mas a que custos, ninguém cura de avaliar.
Os jovens, na sua maioria, não aprendem com rigor, ganham aversão às matérias científicas mais trabalhosas, como a Matemática e a Física, mas também não adquirem formação consistente nas de cultura humanística, base de qualquer futura intervenção política, para além da necessária competência técnica. Basta observar o mau domínio generalizado do português, ignorando que qualquer língua culta tem gramática, e que só o convívio com os autores, antigos e modernos, que cultivaram com elevação o idioma, garante o seu domínio regular e, a agravar tudo isto, a ilusão de que todos falamos inglês, etc...
Estas e outras reflexões que aqui aflorei carecem de ser organizadas num todo coerente, com vista a um futuro artigo. Tenho, obviamente, a noção de que existem outros mais bem preparados nestas matérias, mas, por qualquer razão, não aparecem à luz do dia. Estarão certamente muito ocupados, em altos trabalhos científicos, nas Academias, nas Universidades... Porém, não intervêm civicamente e, assim, não exercem o seu magistério, abrindo campo a toda a sorte de atrevidos, ignorantes, por regra, para além do admissível, sobretudo, quando desempenham funções públicas de relevo, criando verdadeiros paradigmas invertidos.
Estamos assim a edificar um sistema social fortemente assimétrico, para lá do que é aceitável, não só no plano económico, mas também no cultural, em que, a par de uma alta especialização, grassa uma descomunal incultura, que debilita as sociedades, tornando-as presas fáceis de grupos de oportunistas e demagogos sem escrúpulos, que, infelizmente, vão fazendo carreira, a coberto da conivência de uns e da passividade de outros.
Estas e outras semelhantes reflexões vão surgindo por aqui e por ali. No entanto, o problema todo reside no que fazer para inverter a presente situação. Terá a sociedade portuguesa actual reserva suficiente de clarividência para compreender as consequências do apodrecimento cultural em que caiu e conseguirá ela reunir a energia indispensável para debelar as presentes ameaças ? Compreender para agir, deveria ser o nosso lema. De contrário, tudo permanecerá desconjuntado, disperso e, como tal, ineficaz para a desejada regeneração do corpo nacional, hoje tão necessária, como no já distante século xix, altura em que muito se discutiu este tema.
António Viriato - Lisboa - 07-01-2003
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Relações Luso-Espanholas
1- Os episódios recentes dos incidentes na fronteira com a polícia espanhola, juntamente com o ainda mais recente incidente do ilhéu da Salsa, Perejil ou Leila, como se preferir, na costa norte marroquina, veio reacender uma velha questão que alguns incautos julgavam já sepultada nas brumas da História ou mera reminiscência de excêntricos saudosistas dos Séculos das Nações, inexoravelmente, no caso português, deformados pela instrução nacionalista do velho Estado Novo, como gosta de sentenciar uma certa franja social, tida por moderna e bem pensante, com muito peso nas Universidades e na Comunicação.
2- Depois de tanto se apregoar a abolição das fronteiras e a livre circulação de pessoas e capitais, eis que uma simples anunciada manifestação de protesto dos desencantados da mundialização, numa cidade da Andaluzia, trouxe num ápice, e mesmo ultrapassou, o rigor dos controlos fronteiriços, com surpresa geral pela ostensiva brutalidade da polícia espanhola, que sumariamente intimidou tudo e todos, quais novos suzeranos de territórios e populações vizinhos. Note-se que o comportamento das autoridades espanholas extravasou completamente a lei que permite suspender o Acordo de Shengen e repor o controlo das fronteiras. Aquilo a que se assistiu foi a um encerramento arbitrário de fronteiras, puro e simples, com exibição gratuita de autoridade policial.
3- Compreende-se a intenção do Governo Português de desvalorizar os acontecimentos, procurando encerrar rapidamente o assunto, como se de um incómodo cadáver, saído de um qualquer sótão esconso, se tratasse. Para tanto, cumpria aceitar qualquer esboço de desculpa do Estado espanhol, tão logo este se manifestasse, como veio a suceder, para tranquilidade dos nossos governantes.
4- À parte algumas peripécias, a roçar o ridículo, como a das diversas acepções do verbo castelhano lamentar, tudo o que lhes subjaz é demasiado importante, para passar sem reparo. Por mais que certos espíritos despreocupados - inquestionavelmente pós-modernos – pretendam, o incidente foi grave e não vale a pena escondê-lo, nem escamoteá-lo, com a alusão a pretensas retaliações por parte das autoridades espanholas, por anteriores posições assumidas pelo Bloco de Esquerda, tradicionalmente apoiante da ETA.
5- A verdade é que a atitude da polícia espanhola tenderia sempre a ser a mesma, qualquer que fosse a família política do grupo de portugueses envolvido. Ainda não há muitos meses, outro grupo de cidadãos portugueses, quando distribuia publicamente um comunicado sobre a Questão de Olivença, salvo erro, em Cáceres, por ocasião de um encontro de dirigentes da União Europeia, foi também alvo de fortes intimidações, com cerco, revista e detenção, por parte das autoridades espanholas. Dir-se-ia que esta postura façanhuda faz parte do tratamento habitual das autoridades espanholas, para que os portugueses saibam com quem estão a lidar, independentemente do assunto em causa. Se não é isto que se deve entender, então é caso para dizer que escolhem uma via muito original para demonstrar os bons sentimentos evocados nos discursos oficiais das repetidas cimeiras luso-espanholas.
6- Convém não ser muito ingénuo e ir anotando as provas de amizade, sobretudo, relembrando as manobras mais ou menos evidentes de boicote a produtos portugueses, às vezes subtis, que conduzem invariavelmente ao mesmo resultado : eliminar ou neutralizar hipotéticos concorrentes no campo económico, não concedendo em Espanha as condições de igualdade que reclamam em Portugal, quando desejam entrar no nosso mercado. Compare-se, por exemplo, o alarido feito pela imprensa espanhola, quando ocorreu o caso do embargo, infelizmente inconsequente, por falta de firmeza do Governo Português, à aquisição de parte significativa do nosso sector bancário, por um grande grupo financeiro espanhol, com a forma como a mesma imprensa relatou a oposição do governo espanhol ao controlo da Hidro-Cantábrico pela EDP. Veja-se também como foram noticiados os casos dos incidentes na fronteira e o protagonizado pelos Amigos de Olivença, na cidade de Cáceres.
7- No ilhéu da Salsa, contudo, minúsculo rochedo a menos de 200 m da costa marroquina, a sofreguidão das autoridades espanholas em implantar-lhe a sua bandeira, como afirmação de soberania inequívoca, sobre algo que nem sequer oficialmente lhes está atribuído, não pode deixar de causar, sobretudo a Portugueses, um inevitável sentimento de repulsa, pela grosseira utilização de dois pesos e duas medidas, para abordar questões de natureza muito semelhante, como são as que envolvem as disputas sobre os territórios de Gibraltar, Olivença, Ceuta, Melilha e demais ilhéus junto à costa marroquina.
8- Brada aos céus a incoerência da posição espanhola, que exige dos seus contendores – Reino Unido, a propósito de Gibraltar – aquilo que ela própria nega, quando se invertem os papéis na disputa – Olivença, Ceuta e Melilha – com Portugal e Marrocos. Ou seja, a Espanha nega-se a cumprir com Portugal e Marrocos, aquilo que exige, em circunstâncias idênticas, porventura, com menos razão, ao Reino Unido, pela continuada ocupação de Gibraltar. A sua única coerência, neste diferendo, consiste em nunca ter desistido de reclamar a devolução de Gibraltar, ao contrário de Portugal, que, oficialmente, nos últimos quarenta anos, pouco ou nada terá feito pela retrocessão da Vila de Olivença e seu termo. Nem por isso, no entanto, os seus direitos prescreveram ou diminuiram.
António Viriato
Lisboa, 22 de Julho de 2002